Meu amado avô dizia uma frase assim: “Porta teu destino com galhardia!”.
Pequena, não tinha ideia do que as palavras significavam. Mas sabia, adivinhava seu sentido. Pelo contexto, por sua postura, por seu olhar... Era uma declaração de Vida!
Eram momentos tensos, de alegria ou dor, de muitas saídas ou nenhuma, o plano desfeito pelas linhas da Vida. Ou seja, seja lá o que for que te aconteça — sim, do bom ao pior — seja digno do que te acontece, porte com honra, com galhardia, respeite isto que te faz viver, a cada vez, o impensado.
Impensado, veja bem, não impossível. Tudo, literalmente, pode acontecer e jamais estaremos preparados. O que não podemos é virar as costas, nos livrar, deixar de lado a morte, a separação, o prêmio, o convite...
Este ditado acompanha-me desde minhas primeiras decisões. Adulta, vim saber que isto é uma política de viver, uma ética, uma postura. Como nos colocamos diante destas decisões de como viver aquilo, porque não temos escolha: o acontecimento nos é imposto — a morte, o convite, a alegria. Sobre ele não temos controle, não sabemos o “como” viver aquilo...
O que sei é que, a cada vez, há uma lição, um aprendizado, o próprio exercício da Vida. Esta intensidade que experimentamos nesses momentos é a própria força de existir, é nosso índice afetivo da firmeza. Apesar da tristeza, da alegria, da fome ou do desejo, o que se sente é digno, lícito, verdadeiro, ético. Assim, choramos ou gargalhamos intensamente, acompanhados deste vetor.
Faço um teste comigo: quando o acontecimento me atinge e fico naqueles momentos desestabilizados, sem ação, me pergunto: Como eu gostaria que minha história fosse contada? Qual ação criada neste momento faria sentido com minha história?
É quando incluímos os outros, nossos contemporâneos, as testemunhas de nossa vida. Aí penso que gostaria que minha história fosse contada com galhardia, seja de dor ou de alegria. Uma história bonita, de quem sabe que somos pequenas histórias, todas as que compõem a humanidade neste momento.
Que a paz nos guie, com honra e respeito.

Marilia Muylaert
Drª. em Psicologia Clínica, Mestra em Psicologia Social, ambos pela PUC/SP. Analista Institucional, Esquizoanalista, Supervisora Clínica, Pesquisadora Profª. do Departamento de Psicologia Clínica – desde 1989. Autora do livro ‘Corpoafecto: o psicólogo no Hospital Geral’ – Ed. Escuta, 1995/2000.
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