Janeiro chega com a força simbólica dos recomeços. É quando reabrimos agendas, reorganizamos prioridades e renovamos promessas de produzir mais, cuidar mais e viver melhor. Mas, enquanto o calendário vira, nem sempre a mente acompanha esse movimento com a mesma leveza. A sensação de urgência, as demandas acumuladas e a cultura do “dar conta” podem transformar o início do ano em um período de pressão silenciosa, e é exatamente aí que o cuidado com a saúde mental se torna essencial. Neste contexto, o Janeiro Branco, criado em 2014, destaca a mensagem indispensável de que saúde mental é saúde integral, e precisa ser cultivada diariamente, com a mesma seriedade dedicada à prevenção e ao acompanhamento de qualquer condição clínica.
Em 2026, a campanha traz como palavras-chave paz, equilíbrio e saúde mental — termos que, embora pareçam abstratos, dizem respeito à forma como o ser humano lida com a rotina, com os vínculos e com os desafios cotidianos. E a imagem escolhida para representar o tema deste ano traduz bem o cenário atual: post-its, aqueles pequenos lembretes coloridos que ocupam telas e paredes que ajudam a organizar a vida, mas também revelam a sobrecarga. Quantos “post-its” existem na rotina de cada um? Quantas tarefas se multiplicam ao longo do dia? Quantas cobranças são internalizadas como regra? E, sobretudo, onde ficam os espaços de pausa e de cuidado?
Para a psicóloga, da Unimed Chapecó, Raphaela Arend Mendes, compreender a saúde mental exige ampliar o olhar para além do indivíduo. “A saúde mental se constrói nas relações”, destaca. Isso significa reconhecer que o bem-estar psicológico não é resultado apenas de decisões pessoais, mas também do ambiente em que se vive e trabalha, das condições oferecidas, do modo como os vínculos são estabelecidos e do quanto existe espaço para escuta, acolhimento e respeito aos limites. Em outras palavras, paz e equilíbrio não são ausência de problemas, mas a capacidade de atravessar as dificuldades com suporte, com recursos internos e externos, e com uma rede que sustente.
O início do ano, muitas vezes, intensifica um tipo específico de sofrimento: o da expectativa. A pressão por mudanças imediatas, a comparação com metas idealizadas e o acúmulo de responsabilidades podem criar um terreno fértil para o esgotamento. E o esgotamento, quando naturalizado, costuma passar despercebido com cansaço constante, irritabilidade, lapsos de memória, desmotivação, queda de rendimento, sensação de incapacidade e dificuldade de descanso que podem ser sinais de alerta. Não raro, esses sintomas caminham lado a lado com o isolamento emocional, quando a pessoa segue “funcionando”, mas sem espaço para sentir e compartilhar.
Raphaela chama atenção para a importância de perceber esses sinais e, principalmente, de não os tratar como fraqueza. O cuidado com a mente não é um recurso de última hora, é uma prática preventiva, que se fortalece justamente quando não se espera o limite. Por isso, o Janeiro Branco convida a uma revisão honesta da vida cotidiana. Menos sobre acumular metas e mais sobre ajustar rotas. Menos sobre produtividade e mais sobre presença. Em vez de ampliar a lista de exigências, a proposta é revisar os “post-its” invisíveis que carregamos, o excesso de tarefas, a dificuldade de dizer não, a sensação de estar sempre atrasado, a ausência de tempo para si, o hábito de ignorar necessidades básicas como sono, alimentação, lazer e relações significativas.
Pequenas mudanças, quando sustentadas, geram impactos importantes, como reservar momentos de pausa real, estabelecer limites claros, reorganizar a rotina com mais viabilidade, reduzir a autocrítica e buscar apoio ao perceber sinais persistentes de sofrimento.
Na perspectiva da psicóloga, o cuidado com a saúde mental também é um compromisso coletivo, e, no contexto da saúde, essa responsabilidade é ainda mais evidente. Profissionais e equipes lidam diariamente com alta carga emocional, decisões complexas, pressões institucionais e demandas que atravessam vidas. Nesse cenário, investir em uma cultura de cuidado não é apenas desejável, é estratégico e necessário. Ambientes de trabalho mais saudáveis se constroem com práticas consistentes de comunicação, acolhimento, respeito, trabalho em equipe e valorização do humano. Escuta qualificada, espaços de diálogo, reconhecimento de limites e incentivo à busca de suporte especializado são atitudes que protegem não apenas indivíduos, mas a qualidade assistencial como um todo.
Se há uma mensagem central para este início de ano, é que saúde mental não deve ser tratada como assunto secundário, muito menos como responsabilidade exclusiva do indivíduo. Ela se fortalece quando existe rede, quando o cuidado é compartilhado, quando falar sobre sofrimento não gera julgamento, e sim apoio. Quando pedir ajuda não é entendido como falha, mas como maturidade. É nesse sentido que paz e equilíbrio deixam de ser palavras bonitas e se tornam metas concretas, não a promessa de uma vida sem problemas, mas a construção cotidiana de uma vida possível.
Ao final, o Janeiro Branco lembra que o ano não precisa começar com pressa. Ele pode começar com presença. Com escolhas mais humanas e rotinas mais sustentáveis. Pode começar com menos post-its e mais pausas, com uma pergunta que vale para todos: como queremos viver e cuidar ao longo deste ano? Porque o cuidado com a saúde mental não se resolve em um mês, mas pode, sim, começar agora, com atenção, responsabilidade e acolhimento. E quando esse compromisso é assumido por todos, os resultados aparecem onde mais importa: na vida, nos vínculos e na saúde integral de cada pessoa.
