E como florescer depois de duras estações? - por Marcia Guimarães
Nem toda estação foi escolhida por nós.
Mas podemos escolher o que cultivamos a partir dela.
Há períodos da vida em que florescer parece uma palavra distante.
Há o tempo de sobreviver.
O tempo de tentar entender.
O tempo de não ter todas as respostas.
O tempo de recolher.
E há até o tempo em que aquilo que parecia simples se torna complexo demais.
Vivemos numa era em que expandir é valorizado, mas algumas estações pedem recolhimento. E como é, para você, sustentar esse movimento?
Talvez uma das nossas maiores violências contra nós mesmos aconteça quando tentamos florescer enquanto ainda precisamos nos recompor ou criarmos raízes para baixo.
Eu falo com propriedade. Acabei de viver uma estação assim. E não foi a única. Já houve outras.
A natureza não pede desculpas pelo inverno.
Ela não tenta provar produtividade enquanto recolhe energia. Não se compara com a estação anterior. Não interpreta a ausência de flores como fracasso.
Ela atravessa.
E nós, muitas vezes, forçamos nossa natureza...
Sem um repertório real de como é que cuidamos verdadeiramente da nós mesmos, repetimos aquilo que aprendemos simplesmente porque ainda não sabemos diferente.
Ignoramos cansaço.
Passamos por cima dos sinais do corpo.
Permanecemos em relações que já nos adoecem.
Sustentamos responsabilidades que deixaram de nos pertencer.
Tentamos acelerar decisões porque confundimos movimento com avanço.
E o corpo, quase sempre, participa dessa história.
Ele pode pedir descanso antes que a mente aceite parar.
Pode manifestar tensão, exaustão, alterações no sono, irritabilidade, dificuldade de concentração e tantos outros sinais de que alguma coisa precisa ser revista.
Nem todo cansaço significa a mesma coisa e sintomas persistentes merecem avaliação adequada. Mas existe uma pergunta importante que podemos fazer: o que tenho sustentado que já se tornou insustentável para mim?
Talvez amadurecer também seja aprender a reconhecer as próprias estações.
Porque florescer não significa voltar a ser exatamente quem éramos antes de uma experiência difícil.
Às vezes, depois de determinadas travessias, não existe “voltar”.
Existe integrar.
Existe conhecer limites que antes desconhecíamos.
Reconhecer padrões que um dia pareceram normais.
Aprender a dizer não.
Escolher relações diferentes.
Escutar o corpo com mais respeito.
Parar de negociar aquilo que nos custa a própria identidade.
Por isso gosto de pensar que a gente não floresce apesar de tudo o que viveu. Floresce com tudo o que amadureceu dentro da gente.
A flor não apaga a estação anterior. Ela é também consequência dela.
E talvez essa seja uma das perguntas mais importantes depois que começamos a interromper ciclos:
Se termina em mim, o que floresce a partir de mim?
Porque “não começou em mim, mas acaba em mim” nunca foi apenas sobre olhar para trás.
É também sobre decidir o que não será levado adiante.
E, principalmente, sobre criar espaço para aquilo que ainda pode nascer.
A primavera sempre me lembra disso: não precisamos florescer ao mesmo tempo que todo mundo. Há um tempo para cada coisa.
E quando uma nova estação chegar, que ela nos encontre mais conscientes do que queremos cultivar — e também daquilo que não estamos mais dispostos a sustentar.
Talvez florescer seja isso: não negar as estações duras, mas não permitir que elas definam para sempre o clima da nossa vida.

Marcia Guimarães
Marcia Guimarães é Psicoterapeuta e Arquiteta da Identidade.
Criadora do método Psicofotografia e idealizadora do movimento 🍁 Não Começou em Mim. Mas Acaba em Mim.
Há quase duas décadas ajudando pessoas a reconstruírem sua identidade e interromperem padrões emocionais.
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