Quando o abuso distorce o espelho - por Marcia Guimarães
Nem toda distorção da autoimagem começa no corpo. Algumas começam naquilo que fizeram você acreditar sobre si
Aprendemos a nos olhar também pelo olhar do outro. Na infância, especialmente, o olhar dos pais, cuidadores e das pessoas próximas ajuda a formar a lente através da qual começamos a reconhecer quem somos.
Quando esse olhar vem atravessado por abuso, rejeição, críticas, humilhação ou invasão de limites, podemos interiorizá-lo. O que veio de fora passa, pouco a pouco, a parecer nosso.
É assim que o espelho pode ser distorcido.
A autoimagem é uma espécie de retrato interno. Nela estão não apenas nossas percepções sobre o corpo, mas ideias sobre nosso valor, nossa beleza, nossa capacidade, nossa inteligência e até sobre aquilo que acreditamos merecer.
Abusos emocionais, físicos e sexuais, principalmente quando acontecem nos primeiros anos de vida, podem deixar marcas profundas nessa construção. Em alguns casos, a relação com o corpo passa a carregar essas marcas.
A pessoa pode enxergar defeitos de maneira desproporcional, sentir vergonha da própria aparência ou desenvolver uma preocupação intensa com determinadas características do corpo. Em alguns casos, isso pode estar associado ao transtorno dismórfico corporal, que requer avaliação profissional.
Mas a distorção também pode aparecer de outras formas.
Há mulheres que aprendem muito cedo que seu valor está no corpo e passam a buscar nele validação, reconhecimento e amor. O cuidado com a aparência pode se transformar em uma busca incessante por uma versão que finalmente pareça “suficiente”. Podem surgir o culto excessivo ao corpo, a necessidade constante de mudanças e até uma sucessão de procedimentos estéticos, muitas vezes desnecessários, sem que nenhuma transformação externa consiga apaziguar a insatisfação interna.
No outro extremo, há quem queira desaparecer: esconder o corpo através das roupas, ganhar peso, evitar o espelho, sentir vergonha de ser vista ou desconforto em ocupar espaço.
Isso não significa que vaidade, beleza, estética ou procedimentos sejam um problema em si. A questão está no lugar interno de onde nasce essa busca:
Estou cuidando do meu corpo ou tentando corrigir nele aquilo que aprendi a rejeitar em mim?
E os possíveis efeitos de uma autoimagem distorcida podem ir muito além do corpo.
Eles podem aparecer na dificuldade de se posicionar, de estabelecer limites, de reconhecer o próprio valor e até na repetição de relações abusivas. Às vezes, a pessoa muda de relação, mas percebe que continua ocupando lugares muito parecidos dentro delas.
Na era digital, existe ainda um novo espelho: as redes sociais.
Para algumas pessoas, mostrar o rosto, expressar uma opinião, gravar um vídeo ou simplesmente ocupar um espaço de visibilidade pode despertar um desconforto difícil de explicar. Afinal, se em algum momento da vida ser vista, percebida ou exposta esteve associado a perigo, julgamento ou invasão, esconder-se pode ter se tornado uma forma de proteção.
No outro extremo, pode existir uma busca intensa por ser vista, aprovada e validada. A exposição muda, o corpo muda, a estética muda, mas a pergunta interna continua:
“Agora eu sou suficiente?”
Por isso, talvez a questão não seja apenas como você enxerga seu corpo diante do espelho. É também como você se enxerga quando entra em uma relação, quando precisa dizer não, quando precisa ocupar seu lugar, quando alguém olha para você — e quando é a sua vez de se mostrar ao mundo.
Relações abusivas precoces podem ter grande impacto na constituição da identidade. Mas impacto não significa destino.
Se algo deste texto encontra a sua história, quero lhe dizer também de onde escrevo: eu não apenas estudei sobre isso. Eu também atravessei essa experiência.
E aprendi que é possível cuidar do que foi ferido.
O primeiro movimento é clareza: começar a reconhecer o que verdadeiramente pertence a você e o que foi uma distorção que você aprendeu a carregar. Depois, aprender a se olhar com uma lente mais amorosa, estabelecer limites saudáveis e não depositar nas mãos de ninguém a responsabilidade de dizer quanto você vale.
Talvez você tenha repetido padrões. Talvez ainda existam partes suas aprendendo uma nova maneira de se enxergar. Mas não descaracterize a sua caminhada nem diminua tudo o que você precisou vencer para chegar até aqui.
É possível reconstruir a autoimagem. É possível reaprender a ocupar o próprio corpo, a própria voz, as relações e a própria vida.
Diante desse espelho, talvez uma pergunta possa acompanhar você:
Com que olhar estou me olhando? Com o meu — ou com um olhar que um dia aprendi e passei a acreditar que era meu?
Reconhecer essa diferença pode ser o início de uma nova relação consigo.
E lembre-se: tarde é continuar se deixando para amanhã.
AGORA pode ser um ótimo momento para um novo começo.

Marcia Guimarães
Marcia Guimarães é Psicoterapeuta e Arquiteta da Identidade.
Criadora do método Psicofotografia e idealizadora do movimento 🍁 Não Começou em Mim. Mas Acaba em Mim.
Há quase duas décadas ajudando pessoas a reconstruírem sua identidade e interromperem padrões emocionais.
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