Ainda me lembro como se fosse hoje…
Uma menina de olhos pretinhos, cabelos encaracolados, pele branca, educada, sempre agindo em conformidade com o que esperavam dela.
Meiga, bondosa, prestativa, atenciosa.
Aluna exemplar.
Filha obediente.
Irmã dedicada.
Amiga fiel.
Mas existia uma voz sufocada.
A timidez cerceava suas potencialidades, pois almejava dar vazão a toda a criatividade que possuía, para criar invencionices mirabolantes.
Aquela menina não gostava de ser tímida. Tornara-se pelas circunstâncias. Não nascera para assim ser.
O tempo foi tomando forma e, com ele, emergiram desafios múltiplos.
A menina foi vestindo outras capas para se proteger.
Não queria que suas mazelas fossem desveladas, suas chagas desnudadas. Não aprendera a pedir socorro.
Vergonha. Medo. Pavor.
Inteligente e perspicaz, refugiou-se em um universo paralelo. Alimentou-se de tantos substratos psíquicos que ele tomou forma, corporificou-se. Tornou-se lar quando a casa não mais acolhia. É que precisava de afeto — de amor-próprio que ainda não sabia se dar.
Necessitava de outros afetos, como da figura paterna, contudo, ela também não conseguia demonstrar.
Mesmo que a genitora lhe ofertasse esses ingredientes em doses generosas, no jogo da vida, não há substituição completa de papéis. Lacunas ficam.
Em meio a flores e espinhos, foi construindo seu jardim particular. Entre as diretrizes escolhidas, desenvolveu mais um traço que a aprisionou durante anos, martirizando-a compulsivamente. Revestido de qualidade para quem não o entende em sua inteireza, provoca dores no corpo e na alma, impede entregas, dificulta relacionamentos, associa-se à procrastinação e pode, inclusive, quando não tratado, transformar-se em patologia. É o perfeccionismo, parente próximo do orgulho.
O medo de errar apavorava a menina.
Tinha de agir perfeitamente.
Tinha de cumprir todas as regras.
Tinha de dar conta de tudo o que “esperavam” dela.
Até que…
Finalmente, a menina cresceu!
Não precisava mais caber na caixa imposta pela “sociedade”, em padrões impostos como certos, angelicais, ou em ditames que engaiolavam, pseudodiscursos filosóficos ou religiosos.
A menina descobriu que as feridas podem ser estancadas por meio da busca incessante pelo autoconhecimento, por atitudes diferentes. A cura é processual. Uma decisão individual.
Como é libertador reconhecer nossas fragilidades e vulnerabilidades sem nos sentirmos culpadas por isso.
Sou mulher que erra e corrige. Cai e levanta. Chora e ri.
Sou completa em minhas imperfeições, as quais me servem de aprendizado diário para o progresso almejado.
Hoje eu visito aquela menina de ontem e a acolho. Eu a abraço com carinho e a perdoo incondicionalmente. Obrigada, querida, por ter me ensinado a ampliar minha visão e captar nuanças antes inimagináveis.
Eu honro o humano que vive em mim, para que floresça a essência que me define.

Marília Neves
Mineira, mestra em Linguística, especialista em Fundamentos Críticos da Literatura, graduada em Letras, professora, escritora, palestrante, consultora de educação e de gestão pública, adora estudar, refletir, compartilhar e prosear.
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