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Eu: uma perfeccionista a caminho da autoiluminação! - por Marília Neves

Publicada em: 25/05/2026 18:08 -

Ainda me lembro como se fosse hoje…

Uma menina de olhos pretinhos, cabelos encaracolados, pele branca, educada, sempre agindo em conformidade com o que esperavam dela.

Meiga, bondosa, prestativa, atenciosa.

Aluna exemplar.

Filha obediente.

Irmã dedicada.

Amiga fiel.

Mas existia uma voz sufocada.

A timidez cerceava suas potencialidades, pois almejava dar vazão a toda a criatividade que possuía, para criar invencionices mirabolantes.

Aquela menina não gostava de ser tímida. Tornara-se pelas circunstâncias. Não nascera para assim ser. 

O tempo foi tomando forma e, com ele, emergiram desafios múltiplos.

A menina foi vestindo outras capas para se proteger.

Não queria que suas mazelas fossem desveladas, suas chagas desnudadas. Não aprendera a pedir socorro.

Vergonha. Medo. Pavor. 

Inteligente e perspicaz, refugiou-se em um universo paralelo. Alimentou-se de tantos substratos psíquicos que ele tomou forma, corporificou-se. Tornou-se lar quando a casa não mais acolhia. É que precisava de afeto — de amor-próprio que ainda não sabia se dar.

Necessitava de outros afetos, como da figura paterna, contudo, ela também não conseguia demonstrar.

Mesmo que a genitora lhe ofertasse esses ingredientes em doses generosas, no jogo da vida, não há substituição completa de papéis. Lacunas ficam.

Em meio a flores e espinhos, foi construindo seu jardim particular. Entre as diretrizes escolhidas, desenvolveu mais um traço que a aprisionou durante anos, martirizando-a compulsivamente. Revestido de qualidade para quem não o entende em sua inteireza, provoca dores no corpo e na alma, impede entregas, dificulta relacionamentos, associa-se à procrastinação e pode, inclusive, quando não tratado, transformar-se em patologia. É o perfeccionismo, parente próximo do orgulho.

O medo de errar apavorava a menina.

Tinha de agir perfeitamente.

Tinha de cumprir todas as regras.

Tinha de dar conta de tudo o que “esperavam” dela.

Até que…

Finalmente, a menina cresceu!

Não precisava mais caber na caixa imposta pela “sociedade”, em padrões impostos como certos, angelicais, ou em ditames que engaiolavam, pseudodiscursos filosóficos ou religiosos.

A menina descobriu que as feridas podem ser estancadas por meio da busca incessante pelo autoconhecimento, por atitudes diferentes. A cura é processual. Uma decisão individual.

 

Como é libertador reconhecer nossas fragilidades e vulnerabilidades sem nos sentirmos culpadas por isso. 

Sou mulher que erra e corrige. Cai e levanta. Chora e ri. 

Sou completa em minhas imperfeições, as quais me servem de aprendizado diário para o progresso almejado.

Hoje eu visito aquela menina de ontem e a acolho. Eu a abraço com carinho e a perdoo incondicionalmente. Obrigada, querida, por ter me ensinado a ampliar minha visão e captar nuanças antes inimagináveis.

Eu honro o humano que vive em mim, para que floresça a essência que me define.

 

 

Marília Neves

Mineira, mestra em Linguística, especialista em Fundamentos Críticos da Literatura, graduada em Letras, professora, escritora, palestrante, consultora de educação e de gestão pública, adora estudar, refletir, compartilhar e prosear.

 

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